3. Jogo comparativo
Como já comentei no
capítulo sobre a rejeição parental, o uso da comparação é um procedimento
danoso à autoestima. Mesmo assim, não é incomum encontrarmos pais e
professores, principalmente, que – através da comparação com outrem –, busquem
fazer com que a criança atenda às suas expectativas de aprendizado, sejam elas
comportamentais ou não. No âmbito da família, por exemplo, vemos, muitas vezes,
pais comparando um irmão com o outro, ou com o filho de algum parente ou amigo
mais próximo.
Eis alguns exemplos
de falas usadas, comumente, quando da prática desse infeliz modelo:
— Seu irmão, sim, é
que é inteligente.
— Aquele, ali, é um
doce; este, aqui, é um traste.
—
Você deveria ser como seu primo: obediente, estudioso...
— Esse, aí, puxou o pai.
— Aquela, ali, é
igualzinha à mãe.
— Você devia seguir o exemplo do seu colega,
ele faz tudo para agradar aos pais.
Estas
são, apenas, algumas das inúmeras falas negativas e usuais no processo
comparativo, dado que elas apenas se diferenciam na forma, sendo o conteúdo
manipulativo sempre o mesmo.
Na
família, principalmente, essa abordagem, comparativa, além da ideia falsa de
ser estimulante, é pródiga em criar sentimentos de rejeição, raiva e rebeldia
naquele que é comparado como inferior, pois o entendimento é de que os pais
gostam menos dele do que daquele com o qual é comparado. Por outro lado, aquele
que é comparado, positivamente, pode, por medo da rejeição, vir a desenvolver
atitudes compulsivas de obediência cega, e criar para si a ideia de que, para
não desapontar seus pais ou substitutos, ele tem que ser perfeito e seguir,
sempre, os mandatos deles. Vale destacar que estas e outras repercussões vão
além da infância ou adolescência. Vejamos, na prática, como isso pode
funcionar, em termos de rejeição:
Marta, aos 45 anos
de idade, veio para terapia por sentir-se deprimida e, segundo ela, por não ver
sentido em sua vida. Apesar de relutante, ela foi narrando alguns
acontecimentos da sua vida pregressa: o fim do seu casamento, as dificuldades
com os filhos, a raiva do ex-marido, seus medos, a dificuldade de entrega no
novo relacionamento e o acomodamento, geral, da sua vida.
Falava
alto, sempre demonstrando irritação e uma revolta muito grande, praticamente,
com tudo. Aos poucos, apesar de não entregar-se, totalmente, à prática respiratória
do Renascimento, ela foi se soltando, mas sempre que eu perguntava-lhe sobre o
relacionamento com a sua mãe ela a elogiava, vagamente, e referia-se à
admiração que os outros tinham por ela. Tudo transcorria muito lentamente, até
o dia em que ela passou a falar da sua irmã que, a julgar por sua narrativa,
era o exemplo de sucesso da família, bem casada, com uma boa profissão, filhos
etc.
Em determinada
sessão, perguntei-lhe, repentinamente:
— Você não acha que
sua insegurança é proveniente das comparações que a sua mãe fazia de você, em
relação a sua irmã?
Ao dizer-lhe isso, foi como se houvesse aberto
as comportas de uma grande represa, ela chorou, convulsivamente, por mais de
dez minutos. E, aí, começou a falar como se sentia, realmente, diante das desqualificações
que sofria da mãe e do pai (já falecido à época da terapia) que, até então, não
havia sido mencionado diretamente nas sessões.
Aconteceu
algo como se ela tivesse voltado no tempo. Vieram à tona os sentimentos
recalcados de rejeição e de desaprovação dos pais, o que rendeu mais algumas
sessões, somente sobre esse assunto, ficando claro que se casara à revelia dos
pais, por pura rebeldia, para atingi-los, e não porque desejasse fazê-lo,
conscientemente. Enfim, toda a sua insegurança, mais o complexo de
inferioridade e, sobre maneira, a sua baixa autoestima, estavam relacionados à
prática da comparação levada a efeito pelos seus pais.
Na sequência do seu
processo terapêutico, depois de muito esforço e tempo, venceu o medo e
conseguiu conversar com sua mãe a respeito das comparações. Falou das suas
angústias e raivas e de tudo quanto sofrera devido a elas. Segundo ela, foram
momentos difíceis e bastante emocionais de pedidos de perdão, de ambas as
partes: da mãe, pelo tratamento inadequado dado a ela, e, da sua parte, pela
raiva e outros sentimentos de igual teor, acumulados. Mesmo assim, por mais
difícil que tenha sido ela conseguiu se reparentalizar com a mãe, que era a
parte mais entranhada daquela infeliz simbiose. No que se referia ao pai (já
falecido), ela reconciliou-se com ele, através de uma prática de perdão. A
reparentalização é, também, uma espécie de reconciliação que, se levada a bom
termo, consegue dissolver a influência de certos traumas, oriundos das relações
familiares.
Vale
acrescentar que o exemplo acima foi, apenas, um lado da história, de educar os
filhos comparando-os: o lado de quem foi comparado como inferior. Porém, me foi
dado saber que aquela irmã, que fora comparada como a “mais certinha” e
superior, também estava “pagando caro” pelo estigma da comparação, uma vez que
na mesma época em que a irmã estava em terapia, ela também estava vivendo de
modo desconfortável, depressiva e com um casamento à beira da falência. Só que,
por morar em outra localidade, escondia a situação, já que temia revelar aos
familiares e, principalmente à mãe, que ela não era assim, digamos, tão
perfeita. Pode parecer bastante dramática esta situação, mas, não muito
diferente de outras tantas, que já chegaram ao meu conhecimento por meio de
clientes de terapia ou de narrativas em workshops e palestras.
No que diz respeito
à educação escolar, muitas vezes, professores mal preparados também se utilizam
do expediente de compararem um aluno com o outro, pensando estarem motivando
aquele com maiores dificuldades de aprendizado ou com alguns desvios
comportamentais. Puro engano, pensar que isso é saudável, pedagogicamente, pelo
contrário, esse hábito só aprofunda e posterga a solução do problema. Ninguém,
conscientemente, gosta de ser comparado a outrem, principalmente quando se é
colocado em situação de inferioridade. Nenhuma autoestima se alimenta,
positivamente, dessa prática.