quarta-feira, 22 de março de 2017

O vício da comparação



3. Jogo comparativo
Como já comentei no capítulo sobre a rejeição parental, o uso da comparação é um procedimento danoso à autoestima. Mesmo assim, não é incomum encontrarmos pais e professores, principalmente, que – através da comparação com outrem –, busquem fazer com que a criança atenda às suas expectativas de aprendizado, sejam elas comportamentais ou não. No âmbito da família, por exemplo, vemos, muitas vezes, pais comparando um irmão com o outro, ou com o filho de algum parente ou amigo mais próximo.
Eis alguns exemplos de falas usadas, comumente, quando da prática desse infeliz modelo:
— Seu irmão, sim, é que é inteligente.
— Aquele, ali, é um doce; este, aqui, é um traste.
— Você deveria ser como seu primo: obediente, estudioso...
 — Esse, aí, puxou o pai.
— Aquela, ali, é igualzinha à mãe.
 — Você devia seguir o exemplo do seu colega, ele faz tudo para agradar aos pais.
Estas são, apenas, algumas das inúmeras falas negativas e usuais no processo comparativo, dado que elas apenas se diferenciam na forma, sendo o conteúdo manipulativo sempre o mesmo.
Na família, principalmente, essa abordagem, comparativa, além da ideia falsa de ser estimulante, é pródiga em criar sentimentos de rejeição, raiva e rebeldia naquele que é comparado como inferior, pois o entendimento é de que os pais gostam menos dele do que daquele com o qual é comparado. Por outro lado, aquele que é comparado, positivamente, pode, por medo da rejeição, vir a desenvolver atitudes compulsivas de obediência cega, e criar para si a ideia de que, para não desapontar seus pais ou substitutos, ele tem que ser perfeito e seguir, sempre, os mandatos deles. Vale destacar que estas e outras repercussões vão além da infância ou adolescência. Vejamos, na prática, como isso pode funcionar, em termos de rejeição:
Marta, aos 45 anos de idade, veio para terapia por sentir-se deprimida e, segundo ela, por não ver sentido em sua vida. Apesar de relutante, ela foi narrando alguns acontecimentos da sua vida pregressa: o fim do seu casamento, as dificuldades com os filhos, a raiva do ex-marido, seus medos, a dificuldade de entrega no novo relacionamento e o acomodamento, geral, da sua vida.
Falava alto, sempre demonstrando irritação e uma revolta muito grande, praticamente, com tudo. Aos poucos, apesar de não entregar-se, totalmente, à prática respiratória do Renascimento, ela foi se soltando, mas sempre que eu perguntava-lhe sobre o relacionamento com a sua mãe ela a elogiava, vagamente, e referia-se à admiração que os outros tinham por ela. Tudo transcorria muito lentamente, até o dia em que ela passou a falar da sua irmã que, a julgar por sua narrativa, era o exemplo de sucesso da família, bem casada, com uma boa profissão, filhos etc.
Em determinada sessão, perguntei-lhe, repentinamente:
— Você não acha que sua insegurança é proveniente das comparações que a sua mãe fazia de você, em relação a sua irmã?
  Ao dizer-lhe isso, foi como se houvesse aberto as comportas de uma grande represa, ela chorou, convulsivamente, por mais de dez minutos. E, aí, começou a falar como se sentia, realmente, diante das desqualificações que sofria da mãe e do pai (já falecido à época da terapia) que, até então, não havia sido mencionado diretamente nas sessões.
Aconteceu algo como se ela tivesse voltado no tempo. Vieram à tona os sentimentos recalcados de rejeição e de desaprovação dos pais, o que rendeu mais algumas sessões, somente sobre esse assunto, ficando claro que se casara à revelia dos pais, por pura rebeldia, para atingi-los, e não porque desejasse fazê-lo, conscientemente. Enfim, toda a sua insegurança, mais o complexo de inferioridade e, sobre maneira, a sua baixa autoestima, estavam relacionados à prática da comparação levada a efeito pelos seus pais.
Na sequência do seu processo terapêutico, depois de muito esforço e tempo, venceu o medo e conseguiu conversar com sua mãe a respeito das comparações. Falou das suas angústias e raivas e de tudo quanto sofrera devido a elas. Segundo ela, foram momentos difíceis e bastante emocionais de pedidos de perdão, de ambas as partes: da mãe, pelo tratamento inadequado dado a ela, e, da sua parte, pela raiva e outros sentimentos de igual teor, acumulados. Mesmo assim, por mais difícil que tenha sido ela conseguiu se reparentalizar com a mãe, que era a parte mais entranhada daquela infeliz simbiose. No que se referia ao pai (já falecido), ela reconciliou-se com ele, através de uma prática de perdão. A reparentalização é, também, uma espécie de reconciliação que, se levada a bom termo, consegue dissolver a influência de certos traumas, oriundos das relações familiares.
Vale acrescentar que o exemplo acima foi, apenas, um lado da história, de educar os filhos comparando-os: o lado de quem foi comparado como inferior. Porém, me foi dado saber que aquela irmã, que fora comparada como a “mais certinha” e superior, também estava “pagando caro” pelo estigma da comparação, uma vez que na mesma época em que a irmã estava em terapia, ela também estava vivendo de modo desconfortável, depressiva e com um casamento à beira da falência. Só que, por morar em outra localidade, escondia a situação, já que temia revelar aos familiares e, principalmente à mãe, que ela não era assim, digamos, tão perfeita. Pode parecer bastante dramática esta situação, mas, não muito diferente de outras tantas, que já chegaram ao meu conhecimento por meio de clientes de terapia ou de narrativas em workshops e palestras.
No que diz respeito à educação escolar, muitas vezes, professores mal preparados também se utilizam do expediente de compararem um aluno com o outro, pensando estarem motivando aquele com maiores dificuldades de aprendizado ou com alguns desvios comportamentais. Puro engano, pensar que isso é saudável, pedagogicamente, pelo contrário, esse hábito só aprofunda e posterga a solução do problema. Ninguém, conscientemente, gosta de ser comparado a outrem, principalmente quando se é colocado em situação de inferioridade. Nenhuma autoestima se alimenta, positivamente, dessa prática. 

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